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Carlos Freitas

Gravando o Tim Maia no Estúdio Transamérica SP

Avaliação: 2 votos, 5.00 média.
"Bota grave, bota médio, bota tudo!"

Tim Maia 1986

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Domingo , 9:00 da manhã! Eu estava checando o alinhamento do gravador de 24 canais Studer A-80 mas eu não parava de pensar em como seria a gravação de um dos artistas mais talentosos, porém imprevisíveis do Brasil , o Tim Maia. Já começava diferente, pois era um domingo de manhã, dia pouco usual para se começar a gravação de um disco.

Terminei de alinhar o gravador, coloquei a fita nova ampex 456 de 2 polegadas no gravador e passei a zerar a console Harrison. Passava de tudo pela minha cabeça, mas pela primeira vez na minha vida, eu não fazia a menor idéia do que eu iria gravar naquele dia.

Depois de um bom tempo, maquina alinhada para gravação em 30 ips/510 nwb/s, vários cafés, chega o produtor do disco, o Chico Mourão. Eu já tinha trabalhado com o ele em outros projetos e fiquei um pouco mais tranquilo quando eu o vi entrar no estúdio e perguntei a ele o que iríamos gravar, quais os instrumentos seriam utilizados, para que eu escolhesse os microfones, local, planejamento dos canais e para que o assistente preparasse o estudio e para minha surpresa, ele me disse que não fazia a menor idéia, pois tinha sido enviado pela Continental, a gravadora do Tim Maia daquele disco, mas não tinha tido nenhum contato com ele.

Ficamos mais algumas horas esperando quando de repente chega o Tim Maia junto com o tecladista Marquinhos, o baixista chumbinho e o baterista Luis Carlos.

Tim chegou todo feliz e me disse " Grande Carlos Freitas" .... Vamos nos divertir e muito hoje.... mas , quem é esse rapaz? " eu respondi , o Chico Mourão Tim, seu produtor! E eles disse, "Produtor? quem disse que Tim Maia precisa de Produtor?

Bom, depois de muita negociação, Tim cedeu um pouco, aceitou a situação e começamos a conversar sobre o disco. O Tim não tinha nada planejado e me disse: "esta tudo aqui na minha cabeça e vamos gravando que vai dar certo" e emendou..." Carlos Freitas.... Tem uma bateria eletrônica ai? Preciso de um pattern... pattern... Palavra bonita.... Musical! " e eu peguei a linn drum, conectei a saída stereo na console harrison , armei o canal 2 e 3 da Studer A 80 e criei um pattern primeiro com um click.

Eu comecei a ajustar o andamento, quando o Tim, todo empolgado, vira para mim e diz, " Beleza... agora faça isso para mim... Pum pá pum pum pá! " E eu programei primeiro o BB, depois a CX e o hi hat e estava criado o pattern. Tim abre um sorriso e diz" yeees , isso ai... Grande Carlos Freitas" vamos lá, vamos lá... vou gravar bateria e voz..... E eu disse como assim??? E ele me disse , " isso ai ligue um mic aqui na técnica e grave minha voz junto com o pattern" Eu disse, Tim, vamos programar a música , com contagem.... Ele disse, " não .... Está bom assim... gravando....!

Eu pedi ao assistente que ligasse um microfone eletrovoice RE 20 e e em seguida eu o liguei direto um compressor com Pré inovonics 201 direto no canal 18 da Studer ( eu gostava de usar esse canal para gravar voz, e nem me lembro por que, mas eu sempre usava esse canal para voz). Escolhi o RE 20 pela característica do MIC, ótimo para o timbre grave do Tim , por ser direcional e por que eu estava muito preocupado com o vazamento pois estávamos na técnica com o volume bem alto e esse mic se encaixava perfeitamente.

Enquanto o mic era montado, eu melhorei a programação do pattern adicionado um shaker e ajustando os timbres, separei os canais da Linn em BB, CX , HH, SKR , direcionei aos canais da Studer e coloquei a Linn drum bem em frente ao Tim e disse" quero gravar gente, vamos! .... gravando !

Apertei as teclas PLAY/REC da studer e Tim Fez a contagem "1 2 3 4" e apertou a tecla start da linn drum com aquele pattern apenas em loop tocando Pum pá pum pum pá.... e ele começou a fazer com a boca os metais pá pá pá paaaaaa para ... pá pá pá páaaaaa para para ... e começou a cantar. Do leme ao pontal..... e foi cantando e de repente ele canta .... olha o breque, olha o breque.... aperta a tecla stop da linn.... canta... sem falar do calabouço Flamengo Botafogo, urca , Praia vermelha... Do leme ao pont... e aciona a linn novamente ... al ... Pa pa paaaaa para... E vai até ate o final.

Pronto , tínhamos a primeira base gravada.... Do leme ao pontal! ele rindo muito me disse, "yessssss abra outro canal que eu vou dobrar a voz....!" E eu disse , dobrar? "Sim .... Vamos lá...... " e cantou a música novamente, cheio de palvras junto com a letra e acredite, essa voz valeu, mas havia um detalhe, não havia harmonia! O Tim cantou só com a bateria e para nossa surpresa, quando o Marquinhos e Chumbinho foram tocar o tom e a afinação estavam ok.....

Já era segunda de manha quando terminamos a gravação dessa musica, gravando baixo, piano e guitarra e fomos dormir...

Na quinta retomamos a gravação e começamos a gravar a musica pudera. Dessa vez, junto com o Marquinhos e o Chico Mourão, programamos a musica na Linn Drum, Marquinhos gravou o Piano Yamaha CP 80, o Tinho gravou o Sax e fizemos todas as coberturas. O Tim estava muito feliz e cantou a musica maravilhosamente bem, só que no Estudio e dessa vez usei um Neuman U 87.

Parti os para a terceira musica , Brother,Father,Sister,Mother , e seguimos em frente com a gravação.

Sexta feira, 3 da tarde chegam os metais para gravar e o Tim disse "Galera, estou terminando aqui.... Tem um bar na esquina... Vão tomar uma cerveja que eu já chamo voces em 15 minutos.... Continuei com as coberturas e eu ria muito.... O Tim dava bronca em todo mundo, pegava o baixo e tocava tudo errado.... E dizia quero assim!

Bom, 10 da noite eu disse Tim, e os metais? Ele me disse "oh rapaz, chame lá os caras.... Vamos colocar essa metaleira" e eu mandei o assistente chama-los no Bar.... Nem preciso dizer o estado que os caras estavam.... E que até as sete da manha de sabado não tínhamos gravado nada.... Era tudo tão engraçado que ninguém parava de rir! conclusão, não gravamos nada!

Voltamos ao Estúdio no sabado a noite e começamos pelos metais e ficou bem legal. Usei um microfone neauman usm 69 stereo a 2 metros da meia lua formada por eles. A Transamerica tinha 2 salas de gravação, uma muito viva com Madeira no chão e uma parede de espelhos com uma cortina que controlava o ambiente e uma sala enorme com carpete, madeira e pedras. Eu posicionei os musicos de costas para a parede de pedra , posicionei o USM 69 e comecei a passar o som equlibrando o volume dos instrumentos pelo posicionamento dos músicos e após um passo para frente e outro para trás , o equlilibrio estava ok e comecei a gravar. Eu sempre gravei metais dessa maneira, nunca gostei de microfones individuais e o resultado ficou exatamente como eu queria!

No domingo, o Tim queria gravar o coro do breque da musica do leme ao pontal , mas queria muita gente.... Fui ate a radio e chamei todo mundo.... Porteiro, pessoal da discoteca , quem estava lá gravou.... E o Tim ligou para todos amigos em SP e de repente estavam lá o pessoal do placa luminosa, o Frankye , Tony Bizarro e estava formado o coro!

Coloquei 2 mic Neauman U 87 em figura 8 bem no meio daquela galera e comecei a gravar ... Deu tudo certo. Ouvimos amúsica com aquele monte de gente, uma festa no Estudio e o Tim diz "grande Carlos Freitas.... me da um abraço..... Encerramos por aqui..... vou fazer o restante no Rio, pois preciso ainda compor o restante das musicas.... Você pode mixar essas 3 rapidinho?" e eu disse, claro e ele emendou " Bota grave, bota médio , bota tudo! eheheheh quero tudo!" e comecei a mixar.

Eu percebi que a gravação tinhas coisas boas, especialmente os metais e a voz do Tim, mas as baterias eram bem simples, retas... Não estavam legais... Pensei, vai dar muito trabalho mixar isso aqui! Enfim, não gostei nada mas era o que tínhamos. Fiz uma mix bem rápida e gravei em um cassete para ele.

Muitos meses depois , falei com o Chico Mourão, agora grande amigo do Tim, que me disse que tinha conseguido terminar a gravação do disco com o Lincoln Olivetti, e que iria mixar no Rio. e eu perguntei sobre a gravação das 3 musicas feitas em SP e ele me disse "você vai ter uma surpresa".

Combinamos de ouvir as musicas na Transamérica depois de mixadas e quando eu ouvi achei inacreditável! O Lincoln Oivetti simplesmente reprogramou as baterias com muito swingue usando uma linn 9000, com timbres incríveis, colocou o breque no tempo e regravou todos os teclados! Fiquei chocado, aliviado e feliz com o resultado. Gênio! Essa era a única palavra que vinha em minha cabeça sobre o Lincoln Olivetti!

Em 1998, a Continental que agora pertencia a WEA, resolveu remasterizar varios discos do Tim eles contrataram a Cia de Audio para a remaster e para minha felicidade, esse disco fazia parte do projeto e eu trabalhei nele novamente , trazendo de volta a viagem que foi gravar parte desse disco.

Tim, onde quer que você esteja, saiba que sou privilegiado por ter vivido esses momentos com você.... Ter gravado sua voz grave e impar..... Nunca me esquecerei!

Do Leme ao Pontal - Tim Maia (Warner Continental 1986)
http://youtu.be/H9cNXv0f6EI

Atualizado 11/01/2015 em 06:35 PM por [ARG:5 UNDEFINED]

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Comentários

  1. Avatar de Henrique Jr.
    Incrivel! isso nao tem preço